Nossos artigos

Câncer raro: os desafios do tratamento no Brasil

O debate sobre o câncer costuma girar em torno dos tipos mais conhecidos, como mama, próstata, pulmão e intestino. No entanto, existe um universo pouco falado e igualmente desafiador: o dos cânceres raros.

Embora cada tipo atinja um número reduzido de pessoas, quando somados, os cânceres raros representam uma parcela significativa dos diagnósticos oncológicos. Ainda assim, muitos pacientes enfrentam um caminho mais longo até o diagnóstico correto e, muitas vezes, dificuldades adicionais para acessar tratamento adequado.

Falar sobre câncer raro é falar sobre informação, rapidez no diagnóstico e acesso a cuidado especializado.

O que são cânceres raros?

Considera-se raro o câncer que apresenta baixa incidência na população ou que surge em locais ou tipos celulares incomuns.

Isso significa que ele pode:

  • Se desenvolver em uma região do corpo onde tumores são incomuns;
  • Surgir a partir de células que normalmente não dão origem a câncer;
  • Atingir faixas etárias atípicas (por exemplo, um tipo mais comum em adultos aparecendo em crianças).

Estima-se que existam mais de 200 tipos diferentes de cânceres raros. Entre eles estão alguns subtipos de sarcomas, tumores neuroendócrinos, cânceres de glândulas específicas, tumores raros do sistema nervoso central, entre muitos outros.

Um ponto importante: ser raro não significa ser mais agressivo. A gravidade depende do subtipo, da localização e do estágio em que a doença é descoberta.

Por que o diagnóstico costuma demorar?

Um dos maiores desafios dos cânceres raros é o tempo até o diagnóstico correto.

Os sintomas, na maioria das vezes, são parecidos com os de doenças comuns: dor persistente, perda de peso, caroços, sangramentos, alterações intestinais, cansaço excessivo. Como esses sinais não são específicos, é comum que o paciente passe por diferentes especialistas antes de chegar ao diagnóstico definitivo.

Além disso:

  • Muitos profissionais têm pouco contato com determinados tumores raros;
  • São necessários exames mais específicos;
  • A confirmação pode depender da biópsia e da análise detalhada do tecido.

Na prática, isso pode significar meses de investigação até que se descubra exatamente qual é o tipo de câncer e qual o melhor tratamento.

Por isso, um alerta importante: sintomas persistentes que não melhoram devem ser investigados com profundidade.

Tratamento: nem sempre há protocolo definido

O tratamento do câncer raro pode seguir dois caminhos principais:

  1. Protocolos específicos, quando já existem estudos e diretrizes bem estabelecidas;
  2. Tratamento por analogia, quando o médico adapta terapias usadas em cânceres mais comuns para aquele caso raro.

Em alguns tipos já existem medicamentos direcionados, terapias-alvo e estratégias modernas bastante eficazes. Em outros, como o número de pacientes é pequeno, os estudos científicos são mais limitados, o que dificulta a padronização.

Isso não significa ausência de tratamento. Significa que o planejamento precisa ser ainda mais individualizado.

É comum que o cuidado envolva cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapias-alvo, imunoterapia, acompanhamento multidisciplinar.

Em muitos casos, é fundamental que o paciente seja acompanhado por equipe especializada em oncologia e, se necessário, por centros com experiência naquele tipo específico de tumor.

Quando começam os problemas com relação ao tratamento?

Os principais obstáculos do tratamento começam a surgir em situações como:

  • O plano de saúde ou o SUS nega a cobertura do medicamento/terapia indicado;
  • O hospital em que o paciente está regulado não dispõe de estrutura para realizar determinado procedimento;
  • O tratamento indicado diverge dos protocolos padrões;
  • O tratamento indicado é off label (ou seja, “fora das indicações da bula”).

Em muitos casos, o médico prescreve um  tratamento específico porque é o mais adequado para aquele subtipo de tumor, consoante evidências científicas. No entanto, muitas vezes, os pacientes sofrem as negativas, seja pelo SUS ou pelo plano de saúde.

O que o paciente precisa entender

Receber o diagnóstico de um câncer raro pode trazer insegurança adicional. Muitos pacientes relatam sentir medo por não encontrar facilmente informações, dificuldade em encontrar outros casos semelhantes, sensação de isolamento.

Por isso, o apoio psicológico e familiar é fundamental. Também é importante buscar informações confiáveis e orientação com profissionais qualificados, evitando conteúdos alarmistas ou não científicos.

Mas quando se trata de uma negativa de tratamento, o ponto mais importante de se compreender é que o médico que acompanha o paciente é o detentor de todas as informações sobre o caso e é o profissional apto à indicação. 

Se há prescrição médica fundamentada, explicando o porquê aquele tratamento é o mais indicado e necessário, é preciso que o paciente busque auxílio de um(a) advogado(a) especialista em Direito da Saúde caso se depare com uma negativa.

Em tratamentos oncológicos, exige-se uma rapidez do paciente para que este busque com a maior celeridade possível o tratamento médico. 

É possível conseguir um tratamento negado pela via Judicial?

Em muitos casos, é, sim, possível obter o tratamento negado pela via judicial, seja contra planos de saúde ou SUS. 

O caminho da judicialização, em que pese pareça ser dificultoso, infelizmente, é uma batalha necessária para viabilizar o acesso àquele tratamento que pode ser o que conferirá a cura, a sobrevida e a qualidade de vida para um paciente oncológico raro.

A judicialização, seja para obter fornecimento de medicamentos de alto custo, liberação de terapias específicas, autorização de cirurgias, cobertura de exames, pode ser fundamental e essencial para um tratamento mais rápido e adequado. 

Por isso, se você é um paciente oncológico que foi diagnosticado com subtipo raro de câncer, não hesite em buscar um(a) advogado(a) especialista em Direito da Saúde caso se depare com negativas que podem comprometer o seu tratamento. 

Um ponto essencial: não espere a situação piorar

Muitos pacientes tentam resolver administrativamente por meses, enquanto a doença avança.

Câncer raro pode evoluir rapidamente. Em situações assim, tempo é tratamento.

Buscar orientação jurídica não significa “processar por qualquer motivo”. Significa proteger sua saúde quando o acesso ao tratamento está sendo negado ou atrasado de forma injusta.

Você não está sozinho

Pacientes com câncer raro costumam se sentir isolados, até porque são poucos casos. Mas do ponto de vista jurídico, os direitos à saúde são os mesmos.

A raridade da doença não reduz a obrigação de garantir tratamento adequado.

Se você ou um familiar está enfrentando negativa ou demora para iniciar o tratamento de um câncer raro, procure orientação especializada. Muitas vezes, uma medida judicial pode ser o caminho para garantir aquilo que é essencial: a continuidade da vida.

Todos os direitos reservados  Ludmila Ferraz OAB/MS 15.605 

CNPJ 58.276.834/0001-04